quarta-feira, 17 de maio de 2017

O mundo que a gente não quer

Sempre que leio casos de violência contra as mulheres vou confirmando a teoria de que os homens não as amam. Não nesse modelo patriarcal. Somos vistas como objeto, de prazer ou de poder. Tanto faz. Amor, cuidado, empatia, afetividade. Não há. Em menor ou maior escala, a gente espera a hora que serão escrotos. 

Esses dias uma história de violência psicológica mexeu tanto comigo. Vi ali um pedaço da minha vida que nunca tive coragem de contar a ninguém. Chorei copiosamente até dormir, lembrando de um passado ainda tão presente e que ainda me persegue de uma maneira muito sutil. 


Tem frases que ainda não consigo esquecer: "Você ficou inteligente demais para mim" (Comprovando que disputava comigo um tipo de poder intelectual). Ou coisas como: "Você quer me dar o golpe da barriga" (Aqui lembro de quando praticamente me obrigou a comprar um teste de gravidez).



Sinto-me quase uma Jéssica Jones, a heroína da Netflix, fugindo daquele que ainda pode dominar de alguma forma seus pensamentos. 


A história que me ativou o gatilho emocional foi de uma jovem atriz que perdeu boa parte da vida sob a mira de uma violência psicológica travestida de relacionamento amoroso com seu ex-professor. Seis anos numa relação com um cara que não a assumia, com muitas mentiras e aquela tentativa básica de sempre insinuar que a moça entendia tudo errado, fazia confusão, era doida, etc.


As semelhanças: ex-professor, muito tempo entre indas e vindas (aqui foram 5 anos), não me assumia, mentiras, mentiras e aquela tentativa básica de sempre insinuar que a moça entendia tudo errado, fazia confusão, era doida. 

Até hoje não sei o que é verdade ou o que é mentira nas histórias que ele me contava. Num dia era bissexual e me contava histórias das transas com homens. No outro, era mentira. Tinha contado o fato só pra me excitar. Num dia, numa dessas separações, me diz que passou um ano sem transar com ninguém. Quinze dias depois, quando voltei de uma viagem da Bahia, me mandou mensagem dizendo  que tinha se apaixonado e estava namorando. Nunca me assumiu e de repente estava namorando! 


Quatro meses depois, voltou a falar comigo porque estava arrasado por ter perdido na seleção para uma bolsa sanduíche. Um mês depois, nos falando apenas por mensagem de celular, ele, que morava em outra cidade, me diz que vai tá numa data X. Quer me ver.  Tá com muitas saudades. 



Fico ansiosa. Aliás, a crise de ansiedade era uma parceira constante. Cancelo uma viagem para o Rio. Assim não tem desculpa para não vê-lo.  Na data combinada, recebo um e-mail. Não conseguiu passagem para vir. Dizia que o amigo, que ia conseguir uma passagem via sindicato, não teve sucesso. 



Desconfio. Ele nunca me mandava e-mails. Uma olhada rápida no Facebook vejo que o tal amigo está num bar com amigos meus que temos em comum. Alguém acabara de postar a foto.



Volto ao e-mail e respondo que sei que ele está na cidade. Xingo e ameaço. Covarde! Dez minutos depois admite que está na cidade, esqueceu o celular. Usa o do pai. Diz que passa na minha casa para conversarmos. Diz que ainda tá namorando e que a história de ter ficado com um cara outro dia, era mentira. Vamos a um motel. Pior transa da minha vida. Não consigo fuder. Só choro. Choro copiosamente. 


Ainda assim saímos bem. 



Mas dali a dois meses, dois dias depois do meu aniversário, quando cobro por whatsapp que ele esqueceu a data, recebo uma mensagem bem direta: "não somos amigos. A gente só lembra de quem somos amigos".


Morri ali. Minha autoestima também. Minha reação foi apenas dizer que o que ele fazia comigo era violência psicológica. E que tinha todas as provas contra ele (como ainda tenho) e que se ele chegasse perto de mim, destruiria ele e em especial a carreira dele (ou o micropoder que ele tanto preservava). Morria de medo de que prints do pinto dele fossem expostos, como se eu fosse capaz de algum tipo de porn revenge.


Desde então, são quatro anos sem nenhum tipo de contato, embora, vez por outra alguém tente abalar meu emocional enviando menções sobre o morto. Bloqueio total das redes e alerta para qualquer movimentação estranha.


Voltando ao vídeo da moça, ela fez o que eu gostaria de ter feito: processado por violência psicológica . Mas, na época, tive vergonha da família e dos amigos. Tava com a autoestima lá embaixo para enfrentar um processo tão duro e de tanta exposição. Me culpava de ter deixado me envolver emocionalmente. Me culpava por não ter ouvido minha mãe. Me culpava. 


Só com muito feminismo fui entender que a culpa não era minha. Eu era vítima daquilo tudo. Depois compreendi a forma debochada como ele falava sobre as ex ou porque nenhuma falava direito com ele ou simplesmente não falavam.


O texto não tem o intuito de escracho. De denúncia sim. Escracho não. Perdi o tempo dos fatos. Mas senti uma vontade enorme de escrever.



Como em Brilho Eterno de uma mente sem lembrança, apagaria cada traço dele em mim, com a condição de nunca encontrá-lo. E tenho evitado esse encontro. 


É uma cicatriz que nunca fecha e sempre dói a medida que alguém machuca. 



Mas como diz a canção, sou daquelas com "uma estranha mania de quem tem fé na vida". Por isso, seguimos em marcha, até que todas sejamos livre do machismo, do racismo e do patriarcado. Que a moça do vídeo tenha mais sorte do que eu!