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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Trecho de um conto sempre em desenvolvimento

"Deitou a cabeça sobre o peito dele e ficou a contemplar o teto. Queria desviar o olhar para ir ter-se com os pensamentos. Ele falava com empolgação sobre a vontade de mudar. Embora empolgada, sabia que aquilo não duraria tanto tempo assim. Estavam ali de bem. Tinham feito as pazes, mas quanto tempo duraria até se verem de novo? Dois meses? Seis meses? Ele não mudaria. Tinha convicção disso. Era sempre a mesma coisa. Faziam as pazes e, logo depois, um estranho arrependimento parecia tomar conta dele e então, passava a fugir dela. Ele não mudaria e ela havia deixado se envolver novamente..."

domingo, 1 de março de 2009

Chuva de pensamentos

Ao invés do abraço de sempre, um oi apressado como se saisse forçado. O olhar, meio torto, enviesado, demonstrava todos os esforços para ser indiferente. Passou correndo como se o fim do mundo estivesse preste a acontecer com a chuva que caia.

Ela ficou ali parada de guarda-chuva na mão. Esperava que ele voltasse e lhe desse o abraço habitual e o sorriso mais lindo de todos voltasse a estampar o rosto que agora se tornara tarciturno. No fundo, estava sofrendo mais do que ela. Jamais admitiria isso. Preferia puni-la por conta de um punhado de coisas ditas no calor da discussão.

A chuva não o deixou ir muito longe. Parado embaixo de uma laje, ele continuava a fingir indiferença. Seus olhos não a procuravam como antigamente. A raiva estava instaurada . Cabeça dura! Não via que tudo aquilo era desnecessário? Que se quisessem poderiam ser felizes?

Ela caminhou na direção contrária. Desejou jamais tê-lo encontrado naquele instante e nem nunca. Só desejou. No fundo era sempre bom vê-lo. Sentia sua falta. Queria ficar nem que fosse um milésimo de segundo perto dele. Oh, Deus! Como podia pensar assim!

Um turbilhão de pensamentos invandiu-lhe a mente. Lembrança dos bons momentos. Ficava se perguntando onde fora parar todo o carinho que tinham um pelo outro.Lembrou-se da vez em que as mãos se tocaram pela primeira vez. Nossa! Poderia sentir o coração dele pulsando!Também era possível sentir o nervosismo. Os gestos rápidos de carícia demonstravam isto. Agora, era a dor quem tomava conta de si. E doía tão profundamente, porque a pior dor é a da perda de quem está vivo.

Olhou para trás mais uma vez. Ele já não estava mais ali. Sumira tal qual a chuva, que também havia desaparecido. Quem sabe se ela olhasse para frente ele não sumia de vez? Mas não era isso que ela queria...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Três partes para um todo

Três partes compõem-me o todo: a parte de mim que é amor, a parte de mim que é paixão e a parte de mim que é desejo. Irmãs. Viveram juntas até bem pouco tempo. Mas um dia acharam que cada uma deveria seguir um caminho, sem se perderem de vista. Rompiam assim o equilíbrio instaurado. Partiram.

A parte de mim que é amor perdeu-se na primeira vez em que ousou sair sozinha. Arrasada por ter errado o caminho, voltou para casa e dormiu para não mais acordar. Um dia vai despertar novamente e voltar a sair como se nada tivesse acontecido. Viverá a sorte de amor tranquilo.

Diferente da irmã, a parte de mim que é paixão é vida. Ninguém ama mais a vida do que a parte de mim que é paixão. É também a parte de mim mais ingênua. Faz o jogo do contente. Crê que sempre as pessoas podem ser melhores e que podem gostar da parte de mim que é amor, a irmã ausente.
A parte de mim que é paixão encasquetou de jogar paciência. Fica horas a fio jogando um jogo onde cada lance errado pode custar uma ferida ou uma mágoa. É um jogo perigoso. Um dia, alguém há de se ferir mortalmente. Quando isso acontecer, a partida termina, embora outra possa recomeçar. Só quando aparecer a mensagem game over é que tudo se finda ou tudo se desfaz e será cada um por si.

A parte de mim que é desejo é a mais diferente de todas. Adora a sensação de liberdade. Sair é aventurar-se, despertar para o mundo. É volúpia. Dada aos prazeres do mundo. Escolheu esse caminho. Contudo, apresenta defeitos como toda parte de mim que é mortal. Pouco se importa com o mundo a sua volta. Foi criada pela sociedade de consumo. É egoísta, não respeita o tempo dos outros, tudo tem que ser do seu jeito e a sua hora. Quer tudo, mas nada tem.

A parte de mim que é desejo adora implicar com a parte de mim que é paixão. Apesar disso, se dão muito bem. Opostos complementares. Quando a parte de mim que é paixão quer desistir do jogo de paciência, é a parte de mim que é desejo que a acalma e indica o caminho da melhor jogada. Talvez seja a parte de mim mais equilibrada e a mais forte de todas. Esconde em doçura a frieza com que enxerga a vida. Não chora. Guardar para si todas as lágrimas e ainda ajuda a enxugar as lágrimas de parte de mim que é amor e parte de mim que é paixão.

Três partes compõe-me o todo. Irmãs tão diferentes que optaram escolher caminhos diferentes. Agora, buscam reencontrar o equilíbrio do todo. Um eixo que as conduza. Três partes em um único todo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Libidinagem

Tua mão desliza pelo meu corpo em bytes, percorrendo um emaranhado de fios até conectar-se com o meu desejo e revelar todo o pudor não revelado. Despudorados. Extrai-me o sumo do prazer até o êxtase em um movimento de mãos rápidas e ágeis. Libidinosos.

Curva-se então aos arroubos preconizados do desejo, às marcas de uma liberdade que teima em se falsear e a satisfação íntima de um corpo que não se revela. Não se permite (Sussuros). Não se permite. Não se permite vivenciar o lado lascivo da vida e os desejos reais que podem se tornar mais reais ainda. Bobo.

Psiu! Precisa confiar mais em si mesmo, superar os resquícios do machismo sistêmico que impera e impõe as vaidades, as formas e as regras. Toda regra há excessão. É possível se querer o conteúdo mais do que a embalagem. São elas que são descartadas na sociedade onde tudo é (mas não deveria ser ) descartado. Descarte somente os preconceitos. Abra os olhos. Não me encerre com o seu silêncio. Permita-se. O seu desejo pode ser o meu.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Suspiro

Fico pensando como as pessoas vão se tornando distantes uma das outras. De repente, tudo é estranho. Não há amizade (E olha que ela era a mais desejada) . Não se cumprimentam. Não há troca de palavras. Não há carinho. Não há cumplicidade. Bloqueiam-se. Estranhos. Mudanças de um tempo ou tempos de um tempo?

Silêncio.

Talvez a primeira opção seja a mais correta. A gente vai conhecendo o mundo e vai descobrindo que ele é maior do que imaginamos. Vamos descobrindo principalmente o outro. Que nem é tão outro assim, mas que agora se faz especial. Tão especial que ajuda a superar o outro não-especial à medida que descobrimos a especialidade do outro especial. O quanto é fascinante.

Suspiro.

A sensação de “eu perdi” vai aos poucos se transformando em vitória. A gente ganha maturidade. Descobre que não fez tanta maluquice assim. Descobre que os erros só são erros aos olhos do outro. Descobre que é possível gritar mais alto, mesmo que a garganta fique doída depois. Descobre que também tem orgulho suficiente para não falar nunca mais, se quiser.

Suspiro novamente.

Tristeza mesmo é saber que tudo se perdeu. Principalmente a amizade. Parece que as lembranças são sempre acompanhadas do imaginário do ruim. O bom é saber que a saudade é agora um sentimento diminuído. Dá até vontade de pedir para acelerar o tempo, só para que ela suma de uma vez.

Mas um dia a cena muda. Quem sabe se retorna ao começo.



domingo, 23 de março de 2008

O vento e a janela

Ou Breve história de como o vento abriu a janela do mundo

Foi um pé-de-vento com tendências a furacão que abriu a janela de uma vez, escancarando-a. Havia passado por aquelas bandas fazendo uma grande algazarra. Desfez a trança da menina, levantou a saia da moça e cochichou no ouvido de um alguém o... Impublicável. Foi também o danado desse vento que transformou a brasa em fogo, reaquecendo o esquecido. E que janela era aquela que o vento abrira, meu Deus? Jamais havia sido aberta.

Uma luz incandescente agora tomava conta do lugar. Seus olhos ainda não estavam acostumados aquilo. Não que o sol não entrasse no ambiente, mas a fresta era tão minúscula... Não se via nada lá fora. Agora a janela estava aberta. O que fazer? A primeira idéia era isso. Lançar-se para o mundo. Isso mesmo. Precisava conhecê-lo antes do “agora é tarde”. Mas por onde começar? Pensou, pensou, pensou. Ah! Uma idéia. Como não pensara nisso antes. É claro. Acompanhar o vento. E para onde ele ia?

Bradou com todas as forças um “para onde vai, senhor vento?”. Mas nada se ouvia. Teria ido embora? Minutos depois, ouviu-se um sussurrado “vou voltar para o norte”. Na certa ele já devia estar longe, abrindo outras janelas. Ué, mas que norte era aquele? Era algum norte desnorteador? Ou seria o norte que queria para sua vida? Só saberia disso tudo se fosse. E sem mais nem menos seguiu aquela direção. Foi-se. A janela estava aberta mesmo...

domingo, 16 de março de 2008

Lembranças


Procurou daqui, mexeu acolá, revirou uma parte das roupas e não encontrou nada. Ué! Onde estaria? Tinha certeza que ela estava esquecida bem ali. Droga! Uma hora dessas era até bom que ela falasse. Dissesse onde estava. Ah! Se falasse... Contaria tantas histórias. Talvez tivessem alguns aplausos. Mas o certo é que faria qualquer platéia derramar rios de lágrimas.

Dramática. Sua vida nem era lá essas coisas. Daria no máximo uma minissérie em cinco capítulos. Um capítulo para cada cinco anos. O primeiro capítulo seria então uma chatice. Teria tão pouca coisa a contar. De lembrança mesmo só aquela vez em que se perdeu no parquinho. Ainda lembrava. Soltou a mão da irmã mais velha e correu atrás de uma linda borboleta lilás. Uau! A borboleta lilás. Como era linda. Enquanto a borboleta voava para longe, ela a acompanhava. Talvez quisesse voar para longe também...

Foi então que se viu sozinha no meio da multidão. Não que agora fosse diferente, mas naquela época tinha apenas quatro anos de idade. Não viu ninguém. Tivera medo. Resolveu sentar ali, até que alguém aparecesse. A borboleta lilás fazia-lhe companhia. Ficara parada estrategicamente em seus cabelos, acarinhando-a. Era como se sentisse culpada por aquilo.

Já era quase noite quando a irmã apareceu e a encontrou. Sua expressão era um misto de fúria e alegria. Talvez mais de alegria do que de fúria. Ora, o que diria a mãe se soubesse que a caçulinha dela tinha se perdido? Não voltara para casa? Na certa, a irmã mais velha seria acusada por um crime gravíssimo, segundo as leis maternas. Imaginava até a cena. A mãe dizendo “É isso que dá, vai namorar e perde a irmã. Uma criança tão boa” e depois o choro e o lamento. É claro que isso não aconteceu. A irmã mais velha não fora castigada. Na verdade, fizera-lhe jurar que jamais contaria aquela história a mãe, comprando-a com chocolates e outras guloseimas.

A lembrança não estava registrada ali na agenda. Ufa! Enfim a encontrara. Exatamente onde a deixara há meses. Tanto tempo sem abri-la e ela havia ganhado um cheirinho de madeira úmida misturado ao cheiro do papel velho. Estava bem ali. Guardada embaixo da velha canga com a estampa do Che. Tão velha quanto à agenda, também tinha marcas de boas lembranças. O furo bem na estrela da boina do Che, por exemplo, era a lembrança da primeira vez em que fumara. O cigarro caiu de sua mão e o pano acabou ganhando um discreto furo. Só ela via e entendia o porquê. Mas como não vira a agenda? Desatenção? Não. Talvez uma doce ansiedade para escrever os minutos anteriores da mais recente aventura amorosa.

Aventura. Também usara essa palavra para caracterizar o caso com aquele professor de teatro. Seria apenas uma aventura mesmo? Não sabia ao certo. É claro que com o professor de teatro fora mesmo uma aventura. Excursionou um mês pelo Chile, pesquisando junto a ele o empoderamento dos movimentos artísticos de rua sob uma perspectiva weberiana.

Nem diabo sabia quem era Weber. Mas ela foi. Tinha a esperança de chegarem juntos à Patagônia chilena, um lugar que ela adoraria conhecer. Sempre respondia isso quando lhe perguntavam sobre o lugar que lhe tocava o coração. Tinha a resposta na ponta da língua: “Patagônia chilena”. Sim, ouvira de um velho chileno allendista que aquele era o lugar mais bonito da terra. Jurou que um dia estaria lá.

Mas não esteve. A briga pós-momento bacanal encerrou a excursão. Passara o dia inteiro bebendo um autêntico vinho da famosa Concha y Toro. Um legítimo Cabernet Sauvignon. O vinho subiu-lhe a cabeça. Mandou o empoderamento e o tal do Weber às favas. Pegou o primeiro avião. Foi-se embora. Não ficara triste em terminar com o professor de teatro. Sentia muito por não ter chegado à Patagônia chilena. Quando estaria ali novamente? Agora com o aquecimento global, era capaz de as geleiras derreterem. Ela perderia toda a beleza da vida.

A aventura chilena passou-lhe pela cabeça em um fôlego só. É. Talvez a minissérie da sua vida ganhasse um capítulo a mais. Mas como classificar o que sentia? Fazia tanto tempo que não sentia aquilo. Desde que descobrira a traição, talvez. Coisa para esquecer e deixar registrado só mesmo na sua psicóloga portátil.

Era por isso que abria a agenda novamente. Para tentar se desvendar. Desvendar tudo aquilo. A única coisa que sabia, era que ele estava fazendo um bem danado a ela. Talvez fosse cedo para indicar alguma coisa. Ele ainda era um mistério. Deixava as coisas subtendidas. Era necessário fazer uma análise de cada discurso de tudo que era proferido. Ela se embaraçava com aquilo. Odiava análise do discurso. Trancou a disciplina bem no meio do semestre e nunca mais destrancou. O fato era que ele não se revelava. Não por inteiro. Mas ela gostava da parte que havia descoberto. Era o tipo que valia fazer a pena cada instante ao lado dele.

Ah! Alguém precisava ver o sorriso encantador daquele homem. O sorriso também não se revelava. Era algo meio disfarçado. Estilo Monalisa. Meio safadinho. Como se dissesse “Quero você agora”. Mas que ao mesmo tempo dizia “Vá com calma. Eu posso me assustar e nunca mais aparecer”. E ela ficava sem entender nadinha. Ria também. Como se aquilo tudo fizesse parte da sedução. Um dia traria uma foto dele sorrindo. Colaria na agenda.

Tentava se controlar mais. Tinha uma natureza intensa e apaixonada. Ele jamais a entenderia. Do contrário, sumiria sim. Por um momento, teve medo dessa idéia. Anotou as angustias na agenda. E se ela fizesse alguma coisa que o desagradasse? Se ele sumisse da sua vida de vez? O medo era realmente sintomático: estava apaixonada. Mudar os atos e atitudes? Ela enfim teria de ceder aos caprichos de alguém? Isso seriam cenas para os capítulos seguintes. E estariam tudo ali. Devidamente registrado na agenda que voltara outra vez para o fundo da gaveta.